As “fajãs” são áreas planas que resultam de massa e vertente, depositados na base de arribas abrutas, cuja morfologia é moldada pela morfodinâmica costeira, e pelo Homem. Estas desenvolveram sistemas lagunares associados, únicos da região e muito pouco comum em ilhas vulcânicas oceânicas, proporcionando zonas húmidas raras e únicas e de elevada biodiversidade (Partidário e Ferreira, 2005).
Os mesmos autores referem que a ilha de S. Jorge tem como particularidade a multiplicidade de fajãs ao longo do litoral, que devido à sua configuração estreita, alongada e de arribas de declive acentuado não permite a existência de muitos espaços para actividade agrícola e silvícola. Desta forma, as fajãs são considerados pequenos retalhos de terra plana que se encaixam entre as vertentes íngremes das arribas e o mar e são considerados espaços privilegiados para a agricultura. A presença humana nas fajãs está intimamente relacionada com a agricultura sendo consideradas as hortas da ilha.
A fajã de Santo Cristo caracteriza-se por duas importantes dimensões que ditam a sua importância à escala regional. Uma ecológica e outra sócio-cultural. Ecologicamente tem características que proporcionam habitats para espécies endémicas e únicas em Portugal, tendo também condições para a nidificação e passagem de aves migratórias. É um local com uma grande atractividade cultural sobre as populações locais e insulares, realizando-se assim uma das festas religiosas mais emblemáticas da Região Autónoma (Partidário e Ferreira, 2005).
Esta fajã é a mais conhecida de São Jorge, e está localizada entre outras duas fajãs de pequena dimensão: a Fajã dos Tijolos e a Fajã Redonda. A descida pela Caldeira de Cima (trilho que desce da Serra do Topo) é o percurso preferido pelos grupos de turistas que a esta fajã se deslocam. A saída efectua-se normalmente pelo trilho que leva à vizinha Fajã dos Cubres (a cerca de 3 km a oeste) e pela abandonada Fajã do Belo. Estes trilhos estão devidamente assinalados e tem como grau de dificuldade 2, segundo a DRT (2000). O trilho que desce a Serra do Topo atravessa toda uma Zona de Protecção Especial da Natureza, designadamente classificada como Reserva Natural, pelo Governo Regional dos Açores, especialmente por causa da existência de amêijoas na sua lagoa denominada: Lagoa da Fajã de Santo Cristo, mais tarde classificada como Sítio de Importância Internacional ao abrigo da Convenção de RAMSAR - (Convenção sobre as Zonas Húmidas), relativa às Zonas Húmidas de Importância Internacional como Habitat de Aves Aquáticas, graças à sua lagoa.
Toda esta área geográfica apresenta uma espantosa riqueza da fauna e flora de plantas endémicas da Macaronésia, tipica das Floresta da Laurisilva que constituem um habitante único na ilha. História A fajã de Santo Cristo foi formada há 250 anos pelo terramoto de 1757 (Partidário e Ferreira, 2005). Em 1891 contavam-se 111 habitantes na fajã, justificando-se mesmo a existência de uma escola primária. Em 1960 foram inauguradas duas infra-estruturas de enorme importância: o Posto Público de Telefones e uma rede eléctrica alimentada por um pequeno gerador (Teixeira, 1995). Teixeira (1995) refere que em 1980 deu-se um grande sismo na Ilha de São Jorge que isolou a Caldeira de Santo Cristo, cortando ambos os acessos. Todos os habitantes foram evacuados pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa. Muitos dos habitantes nunca mais regressaram, emigrando ou mudando a sua residência para outros pontos mais seguros da ilha.
Na actualidade existem cerca de 15 habitantes permanentes, tendo sido restauradas cerca de 30 das 50 casas antigas existentes (Partidário e Ferreira, 2005). Segundo os mesmos autores, na lagoa existia um pequeno cais, ainda hoje existente, que servia para atracar os barcos, mas que devido ao entulhamento do canal que ligava a lagoa ao mar é actualmente utilizado apenas pelos veraneantes. Esta fajã teve ainda um artesanato rico baseado na tecelagem e cestaria.
População local
Os habitantes da Caldeira eram (e os poucos residentes ainda o são) auto-suficientes: fabricavam nos seus teares, produziam artesanato em vimes, cultivavam os campos e utilizavam as ricas pastagens para a criação de gado. O restante alimento provinha do mar que os rodeia e da fauna das serras circundantes (Teixeira, 1995). Actualmente residem oito pessoas a tempo inteiro na fajã, ainda que muitas pessoas já tenham adquirido o hábito de lá passar o fim-de-semana, em particular a juventude jorgense, e os adeptos de desportos náuticos, ditos radicais (Teixeira, 1995).